quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sobre a amizade



(por Maria Consuelo Passos – revista Mente & Cérebro, nº 208)

Compartilhar a vida. Eis um grande desafio em tempos de hipervalorização da individualidade e de enfraquecimento dos laços. Enfrentamos uma época de contradições em que, por um lado, vivemos cada vez mais solitários e, por outro, criamos permanentemente novas possibilidades de convivência.
Vivemos, portanto, imersos em um grande paradoxo: somos seduzidos por um mundo sem fronteiras no qual devemos transitar livremente, mas, ao mesmo tempo, nossos passos são limitados pela impossibilidade de fazer circular nossos afetos e seguir ao encontro do outro, sem tantas defesas. Talvez a alternativa para superar tais ameaças seja reabilitar a amizade e assim reinventar a vida.
Michel Foucault, um filósofo estudioso do tema, considera a amizade como uma possibilidade de transpor as amarras institucionais das relações, de romper com as formas preestabelecidas e criar novas maneiras de estar criativamente com o outro.


Então, vamos reinventar a vida!!!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Criança e Consumo

Comprar, um verbo que as crianças conjugam cada vez mais cedo. Mas o que fazer para que os pequenos de hoje sejam consumidores conscientes amanhã?

Juliana, a minha filha de sete anos, quis comprar um ursinho de pelúcia logo depois de uma sessão de cinema no shopping. Para mim o pedido soou totalmente descabido. A Juliana não brinca mais com bichos de pelúcia, fizemos uma “limpeza” recentemente em casa e doamos tudo o que servia apenas para lotar as prateleiras dos armários. Além disso, o tal ursinho era bem caro. “ Mas mamãe, eu não achei mais nada que eu gostasse para levar”, justificou Juliana, inocentemente.

Como não ser consumista em uma sociedade de consumo? Ninguém nasce consumista. A verdade é que está cada vez mais difícil resistir a tantos apelos - e nem as crianças escapam. Todos são impactados pela publicidade e estimulados a consumir de forma inconsequente. O consumismo infantil atinge todas as faixas etárias e classes sociais. Que mãe não se rende aos pedidos do filho?

Infelizmente, muitas famílias gastam o que não podem para satisfazer os desejos materiais dos pequenos. A babá Solange Fernandes Brasil, que participou do “Programa Papo de Mãe” sobre este tema, e é mãe de cinco filhos, se endividou para comprar um videogame para Ewanderson, de 12 anos. O garoto mal usou o brinquedo. Quando ela ainda pagava as prestações do jogo eletrônico, o adolescente já sonhava com um modelo mais novo...

O “Projeto Criança e Consumo”, do Instituto Alana, foi criado em 2005 para divulgar e debater as consequências do consumismo: a erotização precoce, a obesidade infantil, o uso de tabaco e o abuso do álcool na juventude, o estresse familiar e a banalização da violência. Em entrevista para o “Programa Papo de Mãe”, a coordenadora do projeto e advogada Isabella Henriques, disse que o grande problema é a publicidade que é voltada para o público infantil: a publicidade que “fala” diretamente com as crianças, feita, muitas vezes, em desenho animado.

A psicóloga do Instituto Alana, Maria Helena Marquetti, concluiu: “a publicidade nunca diz ‘não’ para a criança”. Ela é sempre bacana e isto cria uma situação desigual: enquanto a publicidade está sempre dizendo ‘sim’, ela obriga os pais a sempre falarem ‘não’. Para a psicóloga, “os pais também são vítimas disso tudo”.

(por Roberta Manreza, em Papo de Mãe)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O inferno são os outros

  (por Maria Maura Fadel – revista Mente e Cérebro nº215)


O filósofo francês Jean-Paul Sartre tinha mesmo razão? A verdade é que, em algum nível, o outro sempre incomoda. O desconhecido, então, nem se fala.
Não raro, somos obrigados a passar muitas das preciosas horas do nosso dia bem perto de pessoas com quem jamais estaríamos sequer cinco minutos se isso dependesse exclusivamente de nossa vontade. Porém, na maioria dos casos de inevitável convívio social, vêm em nosso socorro as regras de boa educação, que funcionam como uma proteção, uma espécie de bálsamo que nos resguarda de desgastantes embates.
Podem parecer meros vernizes sociais, mas por trás delas estão entrelaçados conceitos que nos separam (na medida em que explicitam necessidades individuais), protegendo-nos como se fossem redes de contenção e, ao mesmo tempo, nos aproximam de nossos semelhantes, pois permitem trocas em, alguns casos, até o reconhecimento do quanto, em essência, somos vulneráveis e parecidos uns com os outros.
O ato de pedir licença nos lembra que há limites – nossos e alheios – a serem reconhecidos e respeitados. Um corriqueiro ‘por favor’ encerra o reconhecimento de que necessitamos da empatia e, em consequência, da atitude benevolente do interlocutor. A gratidão, no sentido do reconhecimento de que um benefício ou auxílio (por mínimo que seja) nos foi prestado, traz consigo duas ideias implícitas interessantes: primeiro a de que merecemos e podemos receber algo; segundo, somos capazes de perceber e aceitar algo de positivo que nos foi ofertado. Guardadas as devidas proporções e desdobramentos, tanto no microuniverso dos relacionamentos pessoais quanto nas trocas diplomáticas entre países, em última análise valem as mesmas estruturas que sustentam relações mais ou menos profundas e complexas. Naturalmente, as palavras, por si sós, podem ser enganosas. Qualquer uma delas assume conotações diversas, dependendo do contexto e do tom com que são pronunciadas. Ditas de forma sincera, conectadas ao que realmente sentimos e desejamos transmitir, ganham força inusitada. Aí surge o que costumo chamar de o ‘desafio do como’: quando se trata de relacionamento, às vezes vale mais a forma que o conteúdo.
(...) Mas, se você anda convicto de que uma pessoa (ou mais) é responsável por seu inferno particular e tem a incrível capacidade de acabar com a alegria do seu dia, algo pode estar errado,e talvez seja a hora de você voltar a ser o centro de sua vida.